Página Inicial
Educação Continuada
Defesa Profissional
Revista
Público Leigo
 
 

Consciência durante Anestesia Geral

            Consciência transoperatória ou consciência transoperatória acidental pode ocorrer durante anestesia geral quando o paciente não recebe anestésico ou analgésico suficiente durante a cirurgia para prevenir uma subseqüente memória explícita de eventos.

            É fenômeno raro e improvável de ocorrer em condições normais de anestesia. A incidência geral varia de 0,2 a 0,45 dos pacientes submetidos à anestesia geral (Anesth Analg 2004;99;833-9).

            Anestesia geral é definida como um estado induzido por drogas, reversível, em que o paciente permanece imóvel ao estímulo cirúrgico, em decorrência de depressão do sistema nervoso central. A profundidade da anestesia se refere ao grau variável da depressão do sistema nervoso central, e à progressiva diminuição da resposta aos estímulos.

              A situação de consciência transoperatória deve ser analisada de duas maneiras distintas. Há diferenças entre acordar durante a anestesia e ter consciência deste período. No primeiro caso, o paciente pode acordar, ter movimentos voluntários ou sob comando, mas não lembra disso no pós-operatório. Já consciência durante anestesia implica em memória explícita do que foi vivenciado.

              Memória explícita é a capacidade de o paciente lembrar fatos ocorridos durante o período da anestesia. Memória implícita é definida como mudança de comportamento ou desempenho sem a habilidade de lembrar eventos específicos que levaram às mudanças.

            Nem todos pacientes que acordam durante a anestesia vão formar memória explícita deste período, isso porque a dose necessária de medicação para abolir a memória é menor que a dose para manter o paciente dormindo.

            Pacientes podem sonhar durante a anestesia, e podem ter lembrança do ambiente cirúrgico antes e após a anestesia, estes fatos não são considerados consciência transoperatória.

            Além de ser um fato raro de ocorrer, a consciência transoperatória é freqüentemente breve e não traumática. A consciência pode variar desde lembranças vagas até recordação específica de eventos e ser de maior duração.

            As sensações experimentadas podem ser de pressão sobre a área da cirurgia, dor, ansiedade, pânico, lembrança de conversas e sensação de paralisia devido ao uso de drogas relaxantes musculares. As impressões individuais são muito variáveis, podendo, para alguns pacientes, serem muito traumáticas e para outros, nem tanto.

            Após suspeitar que tenha tido consciência transoperatória, o paciente deve procurar seu médico anestesiologista e conversar com ele sobre o assunto. Ele poderá lhe explicar os eventos ocorridos na cirurgia e as possíveis razões de ter ocorrido lembrança durante a anestesia. Recomenda-se o acompanhamento psicológico precoce para evitar ou minimizar a ansiedade e stress pós-traumático gerado pela situação.

            Durante uma anestesia, para manutenção adequada da anestesia geral, o anestesiologista baseia-se em monitorização clínica (controle de movimento, abertura dos olhos, diâmetros das pupilas, sudorese), monitores convencionais (pressão arterial, freqüência cardíaca, gás carbônico expirado), e nas doses indicadas de cada anestésico. A capacitação e atenção do anestesiologista aos detalhes são fundamentais para análise conjunta de todas as informações.

            Monitores de função cerebral estão sendo progressivamente introduzidos na prática clínica, e prometem grande auxílio num futuro próximo. Entretanto, é importante ressaltar que não têm valor quando utilizados como isoladamente como monitores de consciência.

            A Sociedade Americana de Anestesiologia recomenda um check-list antes e durante a administração de uma anestesia geral, com o objetivo de reduzir as chances de erro humano, além da monitorização citada anteriormente, manutenção constante de equipamentos utilizados para administração de anestésicos, como bombas de infusão e vaporizadores.

              As situações nas qual a consciência transoperatória ocorre com maior freqüência são cirurgias em pacientes graves e debilitados que poderiam não suportar uma dose elevada de anestésicos; cesarianas sob anestesia geral, pelo risco de doses elevadas passarem para a criança; pacientes em uso crônico de substâncias como álcool, sedativos, drogas psicotrópicos e outras drogas. Portanto, sempre é importante fornecer informações mais completas possíveis ao médico anestesiologista.

            A consciência transoperatória é uma complicação importante, e apesar de muito improvável, e cada vez menos freqüente hoje em dia, ainda não é totalmente evitável. Pesquisas estão continuamente em andamento, no sentido de reduzir ainda mais a freqüência desta adversidade.

            Conversar com o anestesiologista com antecedência e explicar sobre o temor de que ocorra esta situação pode auxiliar a tranqüilizar o paciente antes de realizar procedimentos sob anestesia geral.

Autor: Dr. Rubens Devildos Trindade
Anestesiologista do CET do SANE

   

Sociedade Brasileira de Anestesiologia - Ano 2008
Rua Prof. Alfredo Gomes, 36 - Botafogo - Rio de Janeiro/RJ - CEP 22251-080
Tel.: (21) 2537-8100 - Fax: (21) 2537-8188 - E-Mail: sba2000@openlink.com.br