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RN: Médicos dobram sua remuneração no SUS Fonte: www.amb.org.br
03/02/2006.
Após 67 dias de paralisação, muitas negociações, protestos e batalhas
judiciais, 240 médicos do Rio Grande do Norte credenciados ao Sistema Único
de Saúde (SUS) garantiram um adicional de R$ 220 mil ao mês, o que significa
que passaram a receber o dobro.
A verba extra será paga pelo Estado (60%) e pelo município de Natal (40%)
com seus recursos próprios, por meio de um contrato com a cooperativa dos médicos
válido por um ano. "Um mês antes do término do contrato, iniciaremos
as negociações para renová-lo", explica Geraldo Ferreira Filho,
presidente da Associação Médica do Rio Grande do Norte (AMRN), entidade que
organizou o movimento.
Representando 16 especialidades médicas de alta complexidade, como
neurocirurgia e oncologia, e oito hospitais particulares credenciados ao SUS,
a mobilização alcançou larga repercussão diante dos dois mil procedimentos
que deixaram de ser realizados no período, principalmente cirurgias.
A crise também levou ao desabastecimento dos hospitais, e quatro pacientes
faleceram sem que pudessem ser operados por falta de materiais adequados,
embora tivessem sido atendidos pelos médicos.
O estopim
O movimento dos médicos teve início em agosto, quando o Ministério da Saúde
editou uma portaria alterando a forma de pagamento aos especialistas
credenciados ao SUS. Conforme o novo código 41, os recursos seriam liberados
para a secretaria municipal de saúde, responsável por repassá-los aos
hospitais e estes, por sua vez, aos médicos. Até então, de acordo com o código
7, os pagamentos eram depositados diretamente nas contas bancárias dos
profissionais. Esta mudança acarretaria um desconto de 43% em impostos, o que
gerou protesto dos especialistas.
Depois de várias reuniões com o prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves,
ficou acertado que os médicos continuariam recebendo pelo código 7 até que
uma comissão formada para debater a questão apontasse soluções para o
impasse. No entanto, os pagamentos dos profissionais simplesmente não foram
efetivados até 12 de novembro, data em que teve início a paralisação.
Quando o movimento completou 60 dias, a AMRN organizou um dia de protesto,
promovendo ato público, distribuição de coletes aos médicos com os dizeres
"Saúde: você tem esse direito" e diversas reuniões setoriais
entre os especialistas em greve. Neste dia, até os anestesiologistas, que têm
contratos à parte com o governo, aderiram à paralisação em solidariedade
aos colegas.
Os vice-presidentes da Associação Médica Brasileira para a região Nordeste
e Norte-Nordeste, Wilberto Trigueiro e Florentino Cardoso, respectivamente,
participaram do dia de luta, em Natal. Para Cardoso, este movimento pioneiro
no Brasil serve de exemplo para a classe médica em todo o País e também
como alerta para os gestores.
"Vemos filas de pacientes do SUS esperando por atendimento no país
inteiro. E isso não ocorre por falta de médicos no mercado, mas porque o
governo paga valores aviltantes", afirmou o dirigente.

Fotos: João Gilberto/AMRN
A vitória
Finalmente, em 19 de janeiro, o governo estadual e a prefeitura acertaram o
adicional de R$ 2,64 milhões anuais pagos, a partir de 1º de fevereiro, à
cooperativa dos médicos, que foi credenciada ao SUS. Os pagamentos anteriores
serão depositados diretamente nas contas dos especialistas. Dessa forma, o
atendimento aos pacientes foi normalizado naquela mesma tarde.
"Foi um movimento histórico para os médicos do Brasil, pois pela
primeira vez as especialidades deram lugar à bandeira maior da medicina em
uma luta por remuneração ética dentro do SUS", avalia o presidente da
AMRN. "Resultado de uma consciência de classe muito aguçada, o
cooperativismo se solidificou como alternativa aos contratos com o
governo", conta.
Para Geraldo Ferreira Filho, prevaleceu a força da classe médica unida.
"Temos que nos mobilizar, participar mais da administração pública,
amadurecer a idéia de lutarmos dentro de estruturas maiores e jamais perder a
capacidade de reagir quando nossas condições de trabalho se deterioram,
arriscando as vidas de milhões de pessoas. Foram as lições que aprendi
nestes 67 dias."
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